segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

(UMA SIMPLES REFLEXÃO)


Sigmund Freud  disse um dia:

"Aonde quer que eu vá, eu descubro sempre que um poeta esteve lá antes de mim".

Obviamente, Freud não se referia a lugares físicos, mas àqueles aonde ele ia em suas buscas das origens das mais diversas patologias mentais manifestadas por seus pacientes (e, de resto, por todos os seres humanos). Pode-se dizer que as buscas de Freud foram, ao longo de seus estudos, sendo ampliadas no sentido do entendimento da dimensão de nossa existência.

É importante, inicialmente, destacar que a frase acima revela, antes de tudo, uma humildade (própria dos grandes gênios), pois ao dizê-la, o cientista médico austríaco estaria atribuindo aos Poetas a primazia de apresentar respostas que ele, como cientista da mente humana (da alma, como queiram) procurava incessantemente em seus estudos, os seus sempre rigorosos estudos que o levaram a criar a Psicanálise, a produzir inestimáveis obras, tais como "A Interpretação dos Sonhos" e "A Psicopatologia da Vida Cotidiana", por exemplo, e fizeram dele (e ainda fazem,mesmo depois de mais de setenta anos de sua morte) a maior referência em seu campo de estudos, o reconhecido gênio, o "Pai da Psicanálise".

Sobre a verdade contida na frase, basta mergulhar em algumas das tantas obras produzidas ao longo de séculos, de milênios, pelos grandes gênios da Literatura Universal e verificar como, nelas, encontramos elementos essenciais na compreensão das angústias, dos anseios, dos defeitos, das virtudes, dos medos e dos desejos que atormentam a existência humana em todos os tempos, na compreensão, enfim, da natureza humana.

Quando falo de gênios da Literatura Universal, não estou segregando, não estou me atendo a uma lista de um crítico especializado, nem me valendo de uma própria (embora eu possa ter a minha, baseada mais em gosto do que em critérios literários). Para mim, Cora Coralina é genial, Adélia Prado é genial, Patativa do Assaré é genial, Carlos Drummond de Andrade é genial, e tantos outros mais são geniais, reconhecidos ou não pelos especialistas. E tenho aprendido a gostar e a reconhecer como geniais tantos outros que são considerados como tais pelos estudiosos, alguns, conhecendo-os eu antes de sabê-los reconhecidos como gênios, e outros, sendo eu levado a conhecê-los a partir do reconhecimento como gênios de que gozam. Poderia citar vários aqui, mas, por já me estar alongando no texto e por considerar que para a ideia que quero passar, basta o exemplo de um gênio, vou ficar em um só, resistindo à enorme tentação de falar de outros que me são essenciais como leitor e como um diletante na Literatura.

Deixarei, então, aqui, como exemplo de um Poeta que, certamente, está entre aqueles que "sempre chegaram aos lugares antes de Freud", um escritor, músico e poeta indiano, contemporâneo de Freud. Trata-se de Rabindranath Tagore, o primeiro não-europeu a conquistar, em 1913, o Prêmio Nobel de Literatura. Tagore é considerado um dos maiores representantes da cultura hindu, comparável, em influência e popularidade, a Gandhi, de quem era amigo. Aliás,atribui-se a Tagore a deferência feita a Gandhi, por sua profunda admiração a este, chamando-o de 'Mahatma'('grande alma'), termo este que ficou definitivamente incorporado ao nome do grande pacifista indiano.

A minha escolha de Tagore não foi baseada na contemporaneidade dos dois gênios [ Freud (1856-1939) e Tagore (1861-1941) ] , nem mesmo por terem nascido no mesmo mês (maio), e, sim, por ter lido algumas coisas suas por esses dias, dentre as quais, a frase seguinte que, para mim, ecoa a de Freud:

"O meu poema é a resposta da alma ao apelo do universo"

Finalizo, então, esta minha reflexão com um dos poemas de Tagore, das minhas recentes leituras, uma das tantas pérolas desse gênio, parte da sua obra "O Coração da Primavera", numa tradução de Manuel Simões. Peço um favor aos que chegaram até aqui, pacientes amigos:leiam o poema com o cuidado que ele merece e requer. Recitem-no,se for possível.


As Coisas Transitórias

"Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te." 

3 comentários:

layla lauar disse...

fechou o ano com chave de ouro... uma belíssima reflexão e o poema do Tagore, que dispensa maiores elogios... muito lindo e profundo.

beijos meu querido e culto poeta ;)

Anônimo disse...

Gostaria de saber em que obra de Freud está a frase?

Rose Rosario disse...

Gostei do seu blog e de sua reflexão
Poesia lindíssima, bela escolha. Amo Tagore
um abraço

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